A gasometria arterial é um exame de sangue, que como o próprio nome sugere, é coletado de uma artéria, preferencialmente a radial, cujo objetivo é avaliar os gases presentes no sangue, sua distribuição, o pH e o equilíbrio ácido-base.

Os principais parâmetros avaliados no exame de gasometria arterial são o pH, a pressão parcial de oxigênio (pO2), a pressão parcial de gás carbônico (pCO2), o bicarbonato sérico (HCO3) e o excesso de bases (BE). Além desses, outros parâmetros que também podem ser analisados são lactato, sódio, potássio, magnésio, cloreto, entre outros.

A leitura da gasometria arterial é realizada pelo gasômetro. O aparelho mede o pH e os gases sanguíneos na forma de pressão parcial do gás, pO2 e pCO2. Os outros parâmetros são obtidos por meio de cálculos.

Os valores para uma gasometria normal são demonstrados na tabela a seguir:

PH7,35 – 7,45
pCO2 35-45 mmHg
pO2 80-100 mmHg
BE(-2) a (+2)
HCO3 22-26 mEq/L
SO2 96-98%

O pH é um índice cologarítimo que indica a acidez, a neutralidade ou a alcalinidade de um meio qualquer. O pH de uma solução é uma medida de sua concentração de H+, assim, se uma solução tem um pH baixo, diz-se que ela é acida e quando o pH de uma solução é alto, ela é denominada alcalina.

O organismo humano necessita de um pH levemente alcalino.

A manutenção do pH é importante para garantir uma atividade normal das enzimas e assim, também, garantir uma função celular normal.

O pH representa a relação entre HCO3 e dióxido de carbono (CO2) e seu cálculo pode ser realizado através da fórmula de Henderson-Hasselback, a seguir:

  • pH = 6,10 + log [HCO3] / 0,03 x PCO2

O HCO3 representa a base do sistema e o CO2 o ácido, assim, uma elevação do bicarbonato acarretará elevação do pH, em uma relação direta. De maneira inversamente proporcional, uma elevação na pCO2 apontará uma redução do pH.

No plasma sanguíneo, o HCO3 e o CO2 compõem o sistema tampão, que é o principal sistema regulador do pH plasmático, evitando variações bruscas do pH. O sistema tampão é a primeira linha de defesa, tem ação imediata e tem atuação através do tampão de bicarbonato, hemoglobina, fosfato e proteína.

CO2 + H2O « H2CO3 « H+ + HCO3

O HCO3, que é o receptor de íons hidrogênio (H+) é a base do sistema e o CO2 é p ácido, uma vez que libera H+.

O ânion gap (AG) representa os ânions não quantificáveis no sangue, como, por exemplo, o lactato. Os ânions quantificáveis são HCO3 3 Cl e o principal cátion mensurável. Assim, pela lei de eletroneutralidade, que determina que as cargas negativas são iguais às cargas positivas, tem-se que a quantidade de sódio deve ser igual ao somatório de AG, HCO3 e Cl. Então:

AG= Na+ – (Cl + HCO3), cujos valores de normalidade variam entre 8 e 12 mEq/L.

É possível dividir a interpretação da gasometria arterial em três etapas iniciais: avaliação do pH; pCO2; e HCO3. O pH normal varia entre 7,35 e 7,45. Valores abaixo de 7,35 de pH apontam para uma acidemia, enquanto valores superiores a 7,45 demonstram alcalemia. NA segunda etapa, ao se avaliar a pCO2, será possível identificar se o distúrbio primário é respiratório ou metabólico. O CO2 age como um ácido e o pH e a pCO2 são inversamente proporcionais, assim, se houver um aumento na pCO2, o pH diminuirá e vice-versa. Portanto, se pH e pCO2 está se movendo em direções opostas, o distúrbio é, primariamente, respiratório. Na terceira etapa, analisando o HCO3, verifica-se as alterações metabólicas. Agora, tem-se que pH e HCO3 são diretamente proporcionais e o HCO3 é a base, então se o HCO3 diminui, o pH também reduzirá. Neste caso, quando pH e HCO3 movem-se na mesma direção, o distúrbio é, primariamente, metabólico.

O excesso de bases (BE) reflete o componente metabólico do equilíbrio ácido-básico, cujos valores normais variam de (-2) a (+2). Se houver uma perda de bases, e o BE estiver menor que (-2), há uma acidose metabólica, caso haja um ganho de bases com BE maior que (+2), representa uma alcalose metabólica.

Os distúrbios do equilíbrio ácido-básico são quatro, sendo dois respiratórios e dois metabólicos e na presença dessas alterações acontecerão respostas compensatórias, que podem ser respiratórias ou renais, cujo objetivo é evitar a mudança de pH. Pode-se dizer que, de maneira geral, um distúrbio respiratório será compensado pela excreção ou retenção de HCO3 ou H+ e que um distúrbio metabólico terá como resposta compensatória uma alteração respiratória por hiper ou hipoventilação. Habitualmente, a resposta compensatória renal é mais lenta que a compensação respiratória.

Na acidose metabólica ocorrerá uma redução do HCO3 na gasometria arterial e consequente redução do pH. Haverá, então, uma hiperventilação, de maneira que a pCO2 também reduza compensatoriamente. Essa resposta compensatória pode ser calculada pela fórmula de Winter, na qual: pCO2 esperada = 1,5 x [HCO3] + 8 (+/- 2). Por esta fórmula, se a pCO2 estiver dentro da faixa esperada, há compensação, portanto, trata-se de uma acidose metabólica compensada. Se a pCO2 estiver abaixo do valor mínimo esperado é sinal de que houve hiperventilação além do necessário e assim, concomitantemente há uma alcalose respiratória associada.

A acidose metabólica é o distúrbio mais comum nas emergências e unidades de terapia intensiva. Esse distúrbio pode ser classificado como hiperclorêmico ou com AG aumentado, sendo fundamental calcular o AG desses pacientes. Valores superiores a 12, apontam para uma acidose metabólica com AG aumentado, que significa que os ânions não mensuráveis estão aumentados, reduzindo o HCO3. Assim, o aumento do AG é compensado pela redução do HCO3 e a variação do AG é igual a variação do HCO3. Quando há também um aumento do  Cl, ocorrerá uma diminuição ainda mais acentuada no HCO3, para manter a eletroneutralidade, e denomina-se acidose metabólica hiperclorêmica.

Quando há uma alcalose respiratória, o organismo tende à hipoventilação como resposta compensatória, de modo que, a retenção de CO2 possa evitar esse aumento de HCO3 e do pH. A fórmula que permite a avaliação desta resposta compensatória é: pCO2 = HCO3 + 15 (=/-2).

O paciente que se apresenta com uma acidose respiratória, por hiperventilação, reterá CO2, então seu organismo providenciará maior excreção renal de ácido ou promoverá a retenção de HCO3 como resposta compensatória, demonstrada na gasometria arterial por elevação na HCO3. Com isso, para cada aumento de 10mmHg da pCO2 acima de 40mmHg, ocorrerá uma elevação de 1mEq/L no HCO3, nos casos agudos. Já nos casos crônicos, para cada elevação de 10mmHg da pCO2, haverá um acréscimo de 4mEq/L de HCO3.

Em um paciente com alcalose metabólica, a hiperventilação elimina o CO2, de maneira compensatória ocorrerá, então, a excreção renal de HCO3. Nestes casos, também é possível diferenciar os casos agudos dos casos crônicos, uma vez que, nas situações agudas, a cada diminuição de 10mmHg da pCO2 abaixo de 40mmHg, haverá uma redução de 2 mEq/L no HCO3, ao passo que nos casos crônicos, esse acréscimo será de 5mEq/L.

É possível que ocorram também, simultaneamente, mais de um distúrbio ácido-base independentes, os quais são chamados de distúrbios mistos, que se pode diferenciar da resposta compensatória por análise do pH. Nos distúrbios mistos opostos, o pH estará normal, diferentemente da resposta compensatória, em que o pH não se normaliza.

Há algumas situações em que ocorrerá um aumento do AG com elevação do HCO3, por meio de fenômenos distintos, no qual resultará uma alcalose metabólica sobreposta à acidose metabólica.

A gasometria arterial está indicada para avaliação e acompanhamento da insuficiência respiratória, do estado ácido-básico e da ventilação alveolar. Entre as contraindicações pode-se citar a manobra de Allen anormal, infecção de sítio de punção, coagulopatias e anomalias arteriais no local de punção. Deve-se atentar ao risco de complicações como espasmo ou oclusão da artéria radial ou femoral, hematoma, fístula arteriovenosa, entre outros.

A gasometria arterial é um exame rápido e simples e sua correta interpretação pode modificar a condução dos casos dos pacientes criticamente enfermos.